5 noções importantes para entender o existencialismo de Sartre

Diferentemente do existencialismo de Kierkegaard, o existencialismo de Sartre é ateu. A consequência disso é a ênfase na liberdade humana.

Para Sartre, diante da liberdade de escolher, o homem enfrenta a angústia
Para Sartre, diante da liberdade de escolher, o homem enfrenta a angústia
Por Wigvan Junior Pereira dos Santos
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O existencialismo foi um movimento filosófico plural, isto é, desenvolvido de formas diferentes por muitos pensadores. O objeto central da reflexão é a existência humana, ou seja, pretende descrever o ser humano concreto – uma realidade individual concreta não pode ser demonstrada, apenas descrita, na dramaticidade que envolve suas escolhas. Por isso se opõe a Hegel: a racionalidade de Hegel, para quem tudo o que é real é também racional, desconsidera os aspectos que caracterizam a existência humana e escapam da explicação puramente racional. A razão não poderia dar conta dos problemas fundamentais da vida.

Existencialismo de Jean-Paul Sartre

1) Existencialismo ateu. Ao contrário do existencialismo de Kierkegaard, com traços religiosos, o existencialismo de Sartre é ateu. Isso teve consequências importantes em sua filosofia, como veremos a seguir. No entanto, não se deve entender que sua filosofia é ateísta no sentido de que por meio dela o pensador nos oferece argumentos a respeito da não existência de Deus. Para Sartre, a existência ou não de Deus não é um problema filosófico.

2) “O homem é o ser cuja existência precede a essência”. Quando um escultor, diante de um bloco de mármore, começa a lapidá-lo, ele já sabe o que o mármore irá se tornar. A fabricação depende dessa ideia prévia. Desse modo, podemos entender que antes da existência da escultura, havia um conceito segundo o qual ela foi produzida. Sua produção precede a sua existência. A respeito do homem, Sartre não admite a mesma ideia. Como não há alguém que o tenha imaginado antes, a essência do homem não é determinada. Sartre ainda nos diz:

“Por outro lado, já sublinhamos que a relação entre existência e essência não é igual no homem e nas coisas do mundo. A liberdade humana precede a essência do homem e torna-a possível: a essência do ser humano acha-se em suspenso na liberdade.

Logo, aquilo que chamamos liberdade não pode se diferençar do ser da ‘realidade humana’. O homem não é primeiro para ser livre depois: não há diferença entre o ser do homem e seu ‘ser-livre’” (SARTRE, 1998, p.68).

3) Liberdade. A ideia de que o homem constrói a si mesmo é o que chamamos de liberdade. A noção de liberdade, que é fundamental no pensamento de Sartre, além de trazer ao homem a responsabilidade (que veremos depois), mostra a irrelevância de se perguntar se Deus existe ou não. Não é preciso superar a ideia de Deus, pois, se Deus existe e proporcionou liberdade aos homens, ele não interfere nas escolhas que são capazes de fazer.

Em outras palavras, o homem é livre, mesmo que Deus exista e, portanto, a existência de Deus não é para Sartre um problema filosófico, já que ele está mais preocupado em investigar a possibilidade de o homem agir e de se responsabilizar por essa ação. Ao justificar suas ações a partir do “temor a Deus”, o homem pretende escapar da sua liberdade – o que se mostra impossível, pois para escolher não ser livre, o homem precisa antes, ser livre. Vejamos o que Sartre diz:

O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria; eis nosso ponto de vista. Não que acreditamos que Deus exista, mas pensamos que o problema não é o da sua existência; é preciso que o homem se reencontre e se convença de que nada pode salvá-lo dele próprio, nem mesmo uma prova válida da existência de Deus” (SARTRE, 1987, p. 22).

4) Responsabilidade. Por não considerar a existência ou não de Deus um problema filosófico, a noção de “responsabilidade” ganha em Sartre contornos interessantes. O homem é livre mesmo diante da existência de Deus ou de uma ordem direta recebida dele, como na narrativa bíblica de Abraão, que recebe de Deus a ordem de sacrificar seu filho. Assim como Abraão precisou decidir sozinho se obedeceria a ordem do anjo, o homem continua sendo o único responsável pelo modo como entenderá a realidade. Vejamos outro exemplo, dado também por Sartre:

Havia uma louca que tinha alucinações: falavam-lhe pelo telefone dando-lhe ordens. O médico pergunta: “Mas, afinal, quem fala com você?” Ela responde: “Ele diz que é Deus”. Que provas tinha ela que, de fato, era Deus? Se um anjo aparece como saberei que é um anjo? E se escuto vozes, o que me prova que elas vêm do céu e não do inferno, ou do subconsciente ou de um estado patológico? [...] Se uma voz se dirige a mim sou eu mesmo que terei de decidir que essa é a voz do anjo” (Sartre, 1987, p. 7-8).

Entender a liberdade de acordo com o pensamento sartreano é entendê-la a partir de um rigor moral absoluto que decorre das decisões que tomamos sozinhos e da inexistência de critérios exteriores nos quais possamos nos apoiar. Diferente dos demais seres da natureza, a árvore, por exemplo, o ser humano pode dar sentido e atribuir valores à sua existência e àquilo que está no mundo.

5) Angústia. Vejamos duas citações de Sartre:

“É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer” (SARTRE, 1973, p. 15).

“É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade, ou, se se prefere, a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser; é na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão” (SARTRE, 1998, p.72).

Na primeira citação, nós podemos entender que, para Sartre, a liberdade tem um sentido de “condenação”, ou seja, não podemos escapar nem da liberdade das nossas ações, muito menos da responsabilidade por elas. Ao tentarmos escapar da liberdade, estaríamos agindo de “má-fé”. Mas por que tentaríamos escapar da liberdade de alguma forma? É o que entendemos na segunda citação: para Sartre, ao se deparar com a possibilidade de escolha, algo que modificará sua vida e o seu ser, o homem sente angústia.

Escolher é causa de angústia porque o homem é responsável por tudo o que faz de sua existência. Ou seja, é a própria existência aquilo que causa angústia ao homem, por isso ele não pode fugir dela. O que pode fazer é mascará-la para que não precise enfrentar que o fundamento de sua existência não é uma essência.


Por Wigvan Junior Pereira dos Santos
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