Ética

A Ética é a área da Filosofia que discute o comportamento moral. Diversas, porém, podem ser as interpretações a respeito do agir moral, como são as de Aristóteles e Kant.

A razão humana, para Kant, seria a fonte legítima de moralidade, pois por meio dela o homem questiona se sua ação é moralmente universal
A razão humana, para Kant, seria a fonte legítima de moralidade, pois por meio dela o homem questiona se sua ação é moralmente universal
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A Ética é uma parte da filosofia prática também conhecida por filosofia moral. Os problemas principais da ética estão relacionados com os fundamentos do dever e com a natureza do bem e do mal, ou seja, tudo aquilo que está relacionado com o modo como devemos viver. Não por acaso, a palavra “ética” vem do grego éthikos e significa modos de ser. Em outras palavras, esse termo pode ser entendido como a reflexão sobre o comportamento moral.

Kant e o Imperativo Categórico

A área da ética que enfrenta a questão do modo como devemos viver é a Ética Normativa, que floresceu na época do Iluminismo, quando os filósofos passaram a entender que aquilo que deveria pautar as escolhas morais deveria ser a razão humana, e não os valores religiosos. O imperativo categórico de Kant é uma importante expressão das perguntas acerca da ação moralmente correta que marcaram esse período. Por meio do Imperativo Categórico, Kant procurou proporcionar um padrão pelo qual determinamos o que é obrigatório ou permissível fazer.

Desse modo, no pensamento de Kant, entrelaçam-se as noções de liberdade e de dever. A razão humana seria uma razão legisladora e, por isso, pela atividade do pensamento, seria possível chegar a normas. Essas normas seriam universais porque são fundadas na razão, algo que todos os humanos possuem. Ao obedecer às normas, a pessoa exerceria sua liberdade de estabelecer, por meio da razão, aquilo que é correto. Para Kant, podemos entender que o dever é uma expressão da racionalidade humana.

Mas o homem, sabia Kant, não é formado apenas de razão, pois ele possui também desejos, medos e interesses que interferem em suas decisões. Por isso, Kant acreditava que, em qualquer decisão, o homem deveria observar se sua ação pode ser universalizada, ou seja, aplicável a todos sem que ninguém seja prejudicado por ela. Se não puder ser universalizada, não se trata de uma ação moralmente correta.

A diferença entre Ética Formalista e Ética Aplicada

A ética de Kant pode ser entendida como formalista, ou seja, ele apresenta uma forma de agir moralmente correta, mas não especifica o que devemos ou não fazer em situações concretas. O filósofo Hegel criticou o formalismo de Kant e propôs uma ética vinculada à história, ao contrário do que ele entendia ser a ética kantiana, que, por não levar em conta a história e o desenvolvimento da sociedade, não conseguia resolver os problemas do indivíduo concreto.

Diferente da ética formalista é a Ética Aplicada, na qual se discute o que é obrigatório ou permissível fazer em relação a situações concretas. Consideremos, por exemplo, que matar uma pessoa seja moralmente incorreto. Mas e se essa pessoa for uma ameaça à sua vida ou à vida de outra, matá-la seria um ato moralmente correto? Da mesma forma, consideremos o roubo e o furto como atos moralmente incorretos. Mas e se essa pessoa for uma mãe desesperada para alimentar os filhos?

Uma área que se desenvolveu a partir da Ética Aplicada foi a Bioética, que discute, entre outros problemas, aqueles relacionados com o uso de animais em experimentos científicos.

O que os filósofos antigos pensavam sobre a Ética?

Desde os sofistas a preocupação sobre o comportamento humano faz-se presente. A ética dos sofistas era relativista, ou seja, para eles não havia normas que poderiam ser universalmente válidas, o contrário do que disse Kant séculos depois.

Sócrates já dizia algo no mesmo sentido que Kant, mas, para ele, a alma humana era, em sua essência, razão e nela deveriam ser encontrados os fundamentos da moral. Platão, por sua vez, desenvolveu esse pensamento com uma distinção entre corpo e alma: o corpo, por ser dotado de paixões, poderia desviar o homem do bem. Para alcançar a ideia de bem, o homem precisaria da pólis, de modo que aquele que age de forma ética é bom e, também, um bom cidadão.

Dissociando o homem da sociedade, os estoicos pensavam na ética como um autocontrole individual com aceitação em relação ao que acontece e com a noção de amor ao destino. Tudo faria parte dos planos de uma razão universal. A consequência do agir, segundo esses princípios, seria a imperturbabilidade da alma.

Para os epicuristas, a imperturbabilidade da alma era também a finalidade da ética, mas os princípios que eles seguiam eram quatro: 1) Não há o que temer quanto aos deuses; 2) Não há o que temer quanto à morte; 3) A felicidade pode ser alcançada; 4) Pode-se suportar a dor. Eles defendiam também que o bem fundamental é o prazer, mas não no sentido do prazer sexual, e sim do prazer da amizade.

Aristóteles e a ética do equilíbrio

A preocupação da ética de Aristóteles, também racionalista como a de Platão, era relacionar mais profundamente o homem com a vida na pólis. Por isso, abandonou o dualismo platônico corpo-alma.

Em sua obra, Aristóteles investigou as formas de governo que permitiriam que os homens tivessem uma vida melhor em sociedade. Para ele, “o homem é um animal político”, ou seja, o homem só realiza sua natureza quando envolvido na vida da pólis. A política constitui, ao lado da ética, dentro do sistema aristotélico, o “saber prático”, pois o objetivo de ambas não é o conhecimento de uma realidade – como no caso da física, astronomia, ciências biológicas e psicologia, que constituem o “saber teórico”. Segundo esse filósofo, ética e polítca não poderiam ser pensadas separadamente, pois enquanto a ética busca o bem-estar individual, a política busca o bem comum.

A ética aristotélica é um estudo da virtude – em grego, areté, que também pode ser traduzido por “excelência”. Isso significa que o objetivo do ser humano é atingir o grau mais elevado do bem humano – a felicidade. Para alcançar a virtude, o homem precisa escolher “o caminho do meio”, a justa medida das coisas, e agir de forma equilibrada. A covardia e o medo de tudo, por exemplo, não seriam o certo, mas não ter nenhum medo também não. A melhor forma de agir seria preservar a cautela, evitando os excessos, tanto de medo tanto de destemor.

Para alcançar a felicidade, cada ser precisa cumprir sua faculdade. A faculdade principal do homem e que o distingue dos outros animais é a racionalidade. Essa é a maior virtude do homem. Sendo assim, para ser feliz, na concepção de Aristóteles, ele precisa exercitar a sua capacidade de pensar. Como o homem não vive sozinho, seu agir virtuoso também terá impacto na relação que estabelece com os outros, ou seja, na vida social e política.


Por Wigvan Junior Pereira dos Santos
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