Filosofia: o que faz um filósofo?

Antes de optar pelo curso de Filosofia, as pessoas apresentam dúvidas como “O que faz um filósofo?” e “é preciso ler muito para ser Filósofo?”.

<i>“Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias.” Nietzsche</i>
“Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias.” Nietzsche
Por Wigvan Junior Pereira dos Santos
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1) O que faz um filósofo e uma filósofa?

A pergunta pelo que faz um filósofo e uma filósofa pode ter uma resposta bem mais ampla e subjetiva, fora do âmbito profissional. Em termos práticos, ou seja, falando sobre o mercado de trabalho, uma pessoa formada em Filosofia poderá trabalhar com ensino, escrita e pesquisa. Ela também poderá trabalhar como leitor crítico para editoras e como crítico de artes, mas é raro você ver uma vaga de trabalho com esta especificação: “Editora contrata graduado em Filosofia”.

Por falar em concursos, se você quer ter um curso superior apenas para prestar um concurso que exija a titularidade superior, mas não especifique qual, a Filosofia será uma excelente opção. Pela grande quantidade de leituras durante o curso, pelas aulas e eventos dos quais participam e mesmo pelas conversas informais que se tem com colegas, a forma de se relacionar com o saber modifica bastante – e isso se reflete quando estudamos qualquer outra coisa; também aparece na escrita, tanto de respostas discursivas, como também na escrita de redações. Um dos concursos que geralmente têm entre seus aprovados pessoas graduadas em Filosofia é o concurso do Instituto Rio Branco para a Carreira Diplomática.

2) Basta ser formado em Filosofia para ser Filósofo?

O que alguém pode fazer para se tornar filósofo ou filósofa é outra pergunta que se faz constantemente. E isso depende da compreensão que a pessoa tem do que seja a Filosofia. Se a pessoa pensar a imagem do filósofo a partir da imagem pessoa errante que discute com seus discípulos em praça pública, com cabelos brancos ao vento, acho que a única forma de se tornar filósofo é inventando uma máquina do tempo. Com sorte a máquina levará você para a Grécia e você poderá conviver com Sócrates, Platão ou Aristóteles a depender do ano. Importante calcular direitinho o ano para você não ir parar por engano na Idade Média.

É difícil responder sobre o que faz alguém se tornar filósofo da mesma forma que é difícil definir o que é Filosofia: há uma grande produção bibliográfica que se convencionou chamar de “filosofia” e dentro dessa produção, há obras que apresentam até estilos literários diferentes – Platão, por exemplo, escrevia Diálogos; Parmênides, escreveu um poema; Epicuro escrevia cartas; David Hume escrevia ensaios; Friedrich Nietzsche escrevia aforismos, só para citar alguns exemplos. Além disso, os filósofos falaram sobre suas atividades de modos diversos no decorrer da história, muitas vezes refutando as interpretações de outros.

Pensando de forma estrita, qualquer pessoa formada em Filosofia pode ser chamada de Filósofa, mesmo sem uma produção relevante, sem ter desenvolvido um sistema próprio ou mesmo sem ter tido uma interpretação a respeito de algum filósofo ou questão filosófica que se destaque. Da mesma forma que as pessoas formadas em Matemática ou Física podem ser chamadas de matemáticas e físicas sem terem inventado um teorema, fórmula ou interpretação originais a respeito do que é produzido em suas áreas.

Se todas as pessoas formadas em filosofia “merecem” o título de filósofas, daí talvez essa questão tenha mais a ver com o mito de que a Filosofia é uma atividade restrita a gênios a qual as pessoas comuns não podem se atrever a praticar. Igualmente, a crença de que as pessoas precisam passar por uma formação tradicional e conhecer toda a história da filosofia para conseguirem elaborar um pensamento filosófico sobre alguma coisa.

3) É preciso ler e escrever muito para se tornar Filósofo?

Embora tenhamos na história da filosofia exemplos de filósofos que nunca deixaram obras escritas ou criticavam o uso da escrita para se transmitir a filosofia, como Sócrates, a forma como, na tradição ocidental, transmite-se os pensamentos filosóficos é por meio de obras escritas. Acredita-se que escrever é a melhor forma de desenvolver uma argumentação sobre algo de forma consistente. Pela leitura, conhecemos aquilo que pensaram antes de nós, seja para dialogar com o nosso próprio pensamento ou para refutá-lo. Pela leitura também amadurecemos a forma de expor nossos argumentos, por estarmos em constante contato com argumentações variadas. Se na infância aprendemos a falar por imitação, aprendemos a escrever bons argumentos conhecendo – e, às vezes, imitando – os bons argumentos que existem sobre uma questão que nos importa.

O filósofo francês Michel Foucault, apesar de escrever muitos estudos, também desenvolvia a sua filosofia por meio de “aulas” que permitiam um dinamismo maior na apresentação de ideias. Muitas dessas aulas, sobretudo as ministradas no College de France, chegaram transcritas a nós, mas mesmo pela leitura percebemos ali uma diferença entre uma filosofia que se faz tendo como meio principal a escrita e a filosofia que se faz por meio do diálogo. Ainda temos as entrevistas: Gilles Deleuze apresentou sua filosofia em uma extensa entrevista filmada a Claire Parnet que hoje conhecemos como “O abecedário de Gilles Deleuze”. Nela, a entrevistadora apresenta letras do alfabeto em sequência e o filósofo responde com uma questão filosófica sobre um conceito que começa com a determinada letra. Por exemplo, A – de Animal, H – de História da Filosofia.

Com as inovações tecnológicas, com o advento das redes sociais e a possibilidade de tantos outros recursos que não podemos prever, provavelmente existem e existirão cada vez mais formas de se transmitir o pensamento filosófico, de se criar estilos de apresentar esses problemas que não dependem da escrita e que só a tem como um item a mais em uma vasta caixa de ferramentas. A mudança da ordem das coisas depende de nós.

4) Qual a diferença entre optar pela Licenciatura ou pelo Bacharelado em Filosofia?

Se você quer fazer faculdade de Filosofia, há duas modalidades: Bacharelado e Licenciatura. Em teoria, a diferença entre ambas seria que o bacharelado prepara o estudante para continuar a pesquisa na área de Filosofia e a licenciatura prepara o estudante para a docência. Na prática, a diferença é bem mais sutil, pois ao prosseguir a pesquisa, o bacharel em Filosofia fará um Mestrado e um Doutorado que o habilitarão para a docência, principalmente para a docência universitária. Do mesmo modo, uma pessoa que faz licenciatura não está impedida de fazer pesquisa e pode, igualmente, fazer um Mestrado e um Doutorado.

A diferença mais imediata em âmbito profissional é que alguns concursos para Professor de Filosofia exigem a titulação de “licenciatura” e, a depender do edital, mesmo com um Mestrado e Doutorado na área, o estudante/filósofo não poderá se candidatar a ela. No entanto, muitas escolas e faculdades particulares não fazem essa exigência, como também não fazem essa exigência a maior parte dos concursos para professor universitário em universidades federais.

A maior diferença é a grade curricular. Embora varie bastante a cada universidade, os alunos de licenciatura terão a oportunidade de fazer disciplinas que preparam para a docência de filosofia no ensino básico, como Didática, Fundamentos Filosóficos da Educação, Políticas Educacionais brasileiras – além de terem que cumprir uma carga horária de estágio obrigatório. Isso tudo permite uma visão abrangente da educação, além de permitir que o estudante pense sobre os problemas que enfrentará na sala de aula a partir da prática orientada por um professor. O estudante também poderá desenvolver seu método de lecionar, pois o estágio é um campo de experimentação.

A grade curricular do bacharelado permite que o estudante aprofunde em algum tema de seu interesse e que desenvolva sua escrita acadêmica em matérias como “Orientação Monográfica”. Além das disciplinas curriculares, os estudantes de ambas as modalidades, podem complementar a sua formação com participações em eventos científicos. Ao participar de eventos em outros estados e universidades, o estudante pode ter acesso a cursos sobre temas que não são contemplados por sua faculdade – pois, pela extensão de temas, é impossível que todos sejam incorporados à grade, e a seleção de conteúdo acaba sendo restrita pela afinidade com os projetos de pesquisa do corpo docente. Ao viajar, o estudante também conhece os projetos de pesquisa de seus colegas, além de poder submeter sua própria pesquisa à apreciação dos demais. O debate de ideias, como sabemos, é muito importante para o desenvolvimento do pensamento filosófico.


Por Wigvan Junior Pereira dos Santos
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