O Processo de Dominação dos Ameríndios

Pintura de José Gamelo Alda (1866 -1945) feita em 1892 para comemorar o IV centenário do descobrimento da América
Pintura de José Gamelo Alda (1866 -1945) feita em 1892 para comemorar o IV centenário do descobrimento da América
Por Lilian Maria Martins de Aguiar
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O filósofo e escritor Michel de Montaigne, contemporâneo ao processo de aculturação das Américas, escreveu “que nunca a ambição, nunca a inimizade pública incitaram os homens uns contra os outros, a tão horríveis hostilidades e calamidades tão miseráveis”, como ocorreu na conquista americana. O poeta chileno Pablo Neruda escrevia também sobre o massacre no processo de aculturação ameríndia: “Os verdadeiros conquistadores dos indígenas na América foram: A espada, a cruz e a fome”.
Nesse sentido, as pesquisas historiográficas sobre o tema ao longo dos anos foram estudadas, em geral, pelo viés sangrento, ou seja, da violência. Esse viés sangrento deixou de lado outras possibilidades de estratégias coercitivas usadas pelos conquistadores. Para tanto, esses processos foram brutais, mas certamente maquiados pela violência psicológica que não deixava marcas externas e foi muitas vezes mais eficiente do que a violência física. E é sobre alguns deles que vamos aqui discorrer.

Por falta muitas vezes de acesso à informação, tendemos a pensar que os povos que aqui já estavam pertenciam a um mesmo grupo nativo, porém isso não condiz com a realidade. Aqui viviam várias tribos concorrentes, essas tribos não precisavam de muito esforço para entrar em choque umas com as outras e assim beneficiar o conquistador através das guerras internas ameríndias. A falta de união dos nativos e o espírito competitivo existente entre as diferentes etnias conduziram milhares de nativos a negociar e lutar ao lado dos conquistadores.

A propagação dos Europeus na América só foi possível também graças às doenças que eles trouxeram. Os nativos não tinham defesa contra a varíola, sarampo e gripe, falecendo assim rapidamente. Em poucos anos as moléstias assolaram e destruíram tribos inteiras. Outro ponto analisado era o fato de o ameríndio combater em seu próprio território, assim, necessitava resguardar a família, proteger sua moradia, plantar e prever a colheita, criando formas para que o processo de invasão europeu não fizesse mais mal aos seus. 

Segundo a historiadora Janice Theodoro, “devemos lembrar que a guerra, para a população ameríndia, era desprovida do sentido europeu. A concepção europeia da guerra não fazia parte de sua cultura. Se era época da colheita do milho, o índio fugia da guerra e ia colher milho. Para os nativos, a fertilidade da terra e a alimentação da família eram de importância superior ao conflito armado”. Por isso, os nativos eram coagidos a negociar e a adiar qualquer conflito com os portugueses. Os conquistadores praticamente não sofriam privações, mas precisavam preocupar-se com suas vidas e com as estratégias de dominação posteriores.

O massacre aconteceu e jamais poderá ser negado, mas não avaliar o sistema em seu tempo e em suas implicações dentro das Américas acaba por fortalecer a ideia de que “os índios” foram somente as vítimas de um destino cruel, e não sujeitos de um processo histórico complexo em que certamente desempenharam outros papéis. Abandonar a supervalorização da passividade que alimenta sentimentos de impotência e incapacidade é indispensável na escrita da história.


Por Lilian Maria Martins de Aguiar
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