Inferências linguísticas

As deduções que fazemos dos sentidos que não se encontram de todo explícitos no texto se caracterizam como as inferências linguísticas
As deduções que fazemos dos sentidos que não se encontram de todo explícitos no texto se caracterizam como as inferências linguísticas
Por Vânia Maria do Nascimento Duarte
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Antes de darmos início à discussão que ora se faz presente, permitamo-nos a uma análise das imagens que seguem:

Autoria da imagem: Carlos Augusto Myrria – conhecido como o maior cartunista do Amazonas
Autoria da imagem: Carlos Augusto Myrria – conhecido como o maior cartunista do Amazonas

Autoria da imagem: Quino – renomado cartunista argentino criador de Mafalda e de tantas outras tirinhas
Autoria da imagem: Quino – renomado cartunista argentino criador de Mafalda e de tantas outras tirinhas

Um questionamento parece bater à porta quando nos posicionamos na qualidade de interlocutores: ao analisá-las, constatamos se tratar de uma linguagem verbal associada à outra não verbal, isso é fato. Mas, será que a intencionalidade discursiva se limita apenas aos dizeres que se encontram explícitos?

O fato é que em se tratando de um leitor desavisado, a resposta a tal pergunta simplesmente irá se efetivar como positiva e, assim se concebendo, provavelmente a mensagem não tenha ficado clara, coesa, interpretável, digamos assim. Todavia, analisando por outro lado, caso se trate de um leitor com um conhecimento de mundo um pouco mais amplo, possivelmente irá compreender que as intenções, tanto do cartunista Quino, quanto de Myrria, não se limitaram apenas ao universo do explicitamente dizível, haja vista que por trás das falas conferidas às personagens da charge e da tirinha reside uma intenção maior: talvez a de denunciar acerca de uma temática amplamente polêmica, quem sabe...

Assim, no que tange ao primeiro exemplo, há de se questionar: Por que o Cristo Redentor, ainda que eleito de forma tão justificável,  sente-se “incomodado”, “exposto a riscos” pelo fato de conviver em meio a tantas balas perdidas? Não diferentemente ocorre com a atribuição de Mafalda conferida à postura de Manolito, afirmando que ele realmente havia pronunciado um palavrão: “política”. Haveria justificativa plausível para tal, levando em consideração o contexto a que estamos submetidos?

Pois bem, referindo-nos ao “contexto”, eis que em tal palavra reside o ponto central, a ideia-chave de nossa discussão, haja vista que a essa prerrogativa atribuímos todos os aspectos relacionados à Pragmática, ramo da Linguística que estuda a linguagem a partir de uma dada realidade em que ela foi proferida, não se limitando apenas ao nível da semântica proposicional ou frásica, isto é, a apenas aquilo que se encontra explicitamente demarcado, exposto. Dessa forma, com base nesses pressupostos, voltemos aos exemplos anteriores e constatemos o indizível demarcado, em primeira instância, pelo fato de que a intenção impressa no discurso de Myrria se justifica pela própria situação de violência a que se encontra exposta a chamada “cidade maravilhosa”, no caso o Rio de Janeiro, haja vista que até um dos cartões-postais do lugar não escapa às provações, isso tomado no sentido metafórico da palavra, obviamente. Bem ao gosto da denúncia propriamente dita, figura a personagem Mafalda ao afirmar que a palavra política se demarca como um verdadeiro palavrão, não referido ao sentido do grau, gramaticalmente afirmando, mas sim concebida no sentido pejorativo, no sentido de quase que abominável, dada a situação na qual nos encontramos inseridos, ou seja, em meio a tanta corrupção, em meio a tanta hipocrisia, a tanta ganância em favor dos benefícios próprios, entre tantos outros fatores que, no momento, tornam-se indiscutíveis.

Mediante as elucidações aqui firmadas, cabe a nós conscientizarmos de que aquilo que não se encontra explicitamente retratado, mas que se torna facilmente decifrável por meio das deduções que fazemos caracteriza-se como inferências linguísticas, nada mais.


Por Vânia Maria do Nascimento Duarte
DESTAQUES
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