Acidente com Césio-137 em Goiânia

O lixo atômico necessita de cuidados especiais, senão pode gerar um acidente nuclear como o acidente com o césio-137
O lixo atômico necessita de cuidados especiais, senão pode gerar um acidente nuclear como o acidente com o césio-137
Por Jennifer Rocha Vargas Fogaça
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No ano de 1987, ocorreu em Goiânia, capital do estado de Goiás, o segundo maior acidente radioativo do mundo, ficando atrás somente do acidente de Chernobyl, na Ucrânia. Entretanto, é considerado o maior acidente nuclear do Brasil e do mundo, fora de usinas nucleares. Esse é mais um exemplo que mostra como a falta de conhecimento por parte das pessoas e o descaso com o tratamento do lixo atômico podem resultar em tragédias irreparáveis.

O acidente teve início no dia 13 de setembro. Somente dezesseis dias depois a contaminação das pessoas por material radioativo foi descoberta pelas autoridades e foram tomadas medidas necessárias para a descontaminação.

Como tudo ocorreu:

Um hospital (Instituto Goiano de Radiologia – IGR) havia sido desativado após sofrer uma ação de despejo. Entre os escombros do hospital havia um aparelho de radioterapia com uma cápsula de chumbo contendo cerca de 20 gramas do sal cloreto de césio 137 (CsCl). Essa quantidade gera um volume de mais de 7 toneladas de lixo atômico.

O césio-137 é um isótopo radioativo (radioisótopo) do césio, que possui em seu núcleo 55 prótons (esse é seu número atômico) e 82 nêutrons; portanto, seu número de massa (A) é igual a 137 (55 + 82). Esse elemento é muito nocivo, pois emite partículas ionizantes e radiações eletromagnéticas capazes de atravessar vários materiais, incluindo a pele e os tecidos do corpo humano, interagindo com as moléculas do organismo e gerando efeitos devastadores. Ele é capaz de substituir o potássio nos tecidos vivos. No aparelho de radioterapia, porém, seu feixe radioativo é usado para atacar as células cancerígenas e o chumbo da cápsula impede que essa radiação atravesse e contamine os materiais ao redor. Hoje se costuma usar o cobalto-60 no lugar do césio-137.

No entanto, dois sucateiros, Roberto dos Santos e Wagner Mota, invadiram o prédio abandonado e removeram o aparelho de radioterapia a fim de vendê-lo para um ferro-velho. Eles arrombaram a máquina, dando inicio à contaminação.

Posteriormente, eles venderam a peça para o dono de um ferro-velho (Devair Alves Ferreira), que tirou a cápsula de chumbo com o césio-137 e ficou maravilhado com a substância, acreditando que o pó era sobrenatural, pois brilhava no escuro, apresentando um tom azulado. Levando para casa, vários de seus familiares, vizinhos e amigos queriam ver o misterioso pó brilhante, pegando-o com a mão, passando-o no corpo e se contaminando cada vez mais. 

Dentro de algumas horas, as pessoas que entraram em contato com esse material começaram a sentir os primeiros sintomas da contaminação radioativa, como náuseas, vômitos, tonturas e diarreia. Porém, as pessoas continuavam manipulando o material e distribuindo-o entre parentes e amigos. Devair ainda chegou a fazer um anel para a sua esposa, Maria Gabriela, com fragmentos do Césio-137 – porém, o resultado foi que ela teve que amputar o seu braço no dia seguinte, em razão da alta intensidade de raios gama.

No dia 19, o irmão de Devair, chamado Ivo, levou a substância para casa e ela foi ingerida por sua filha de 6 anos, Leide das Neves. Essa criança se tornou o símbolo desse acidente em Goiânia, pois foi considerada a maior fonte de radiação humana do mundo e, ao morrer, em virtude da contaminação, precisou ser enterrada em um caixão de chumbo erguido com um guindaste.

Acreditava-se que os sintomas das pessoas eram apenas uma doença infecciosa, mas, enquanto isso, a contaminação se alastrava rapidamente. Para citar um exemplo, Odesson Ferreira, outro irmão de Devair, que era motorista de ônibus, entrou em contato com a substância e contaminou vários passageiros.

Em 29 de setembro de 1987, descobriu-se que a fonte da contaminação era o material radioativo, pois a esposa de Devair suspeitou do pó e levou a cápsula para a sede da Vigilância Sanitária. Chamaram o físico Walter Mendes e ele descobriu que se tratava de uma substância radioativa. Ele chegou a tempo de impedir que os bombeiros jogassem a cápsula dentro do rio Meia Ponte, principal fonte de abastecimento da cidade.

Descontaminação:

A descontaminação foi iniciada no dia 30 de setembro, pelos técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), juntamente com a ajuda da polícia militar. Quatro pessoas morreram, mais de 200 pessoas foram contaminadas, em maior ou menor grau, sendo colocadas em quarentena num estádio, o Olímpico, onde passaram por uma triagem para identificar o grau de contaminação. Muitos foram enviados ao Rio de Janeiro para a realização de um tratamento intensivo.

Os rejeitos do acidente com césio-137, em Goiânia, envolveram todo e qualquer tipo de material que entrou em contato com o césio, ou sua radiação, como os resíduos que foram gerados em hospitais, no ferro-velho, as plantas, os animais, objetos pessoais, roupas, fotografias, cartas, dinheiro, materiais de construção, toda a vizinhança e até mesmo um ônibus, que Odesson dirigia. Enfim, foram produzidas 13,4 toneladas de lixo atômico, que foram acondicionadas em 14 contêineres lacrados hermeticamente.

Depois de muitas discussões sobre o destino desse lixo, ficou definido um repositório em Abadia de Goiás (GO), a 25 km do centro de Goiânia.

Vítimas do preconceito:

As pessoas contaminadas pela radiação, mesmo depois de terem saído do hospital, foram tratadas com preconceito, como se tivessem uma doença contagiosa. Muitas vezes eram até mesmo apedrejadas; e algumas crianças precisaram mudar de escola, sendo vítimas de bullying.

Crianças nascidas após o acidente também foram vítimas indiretas dessa contaminação, sendo que muitas nasceram com problemas de saúde.

Em 1996, três sócios e funcionários do antigo Instituto Goiano de Radioterapia foram condenados pela Justiça por homicídio culposo (quando não há a intenção de matar). No entanto, os três anos e dois meses de prisão foram substituídos por prestação de serviços.

As vítimas dizem que há um descaso do governo em não fornecer remédios e tratamentos adequados. Mesmo depois de todos esses anos, elas ainda dizem sofrer muito, pois esse acidente causou uma ferida muito grande na vida dessas pessoas, que jamais conseguirão esquecer o episódio.


Por Jennifer Rocha Vargas Fogaça
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