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Sócrates

Considerando a si mesmo um parteiro de ideias, Sócrates dizia fazer as pessoas pensarem por conta própria.

Por: Francisco Porfírio Sócrates introduziu na Filosofia Antiga questões relativas ao ser humano e ao seu convívio social.

Sócrates introduziu na Filosofia Antiga questões relativas ao ser humano e ao seu convívio social.

Sócrates viveu em Atenas, entre os anos 470 e 399 a.C. O pensador grego marcou a produção de sua época, tendo introduzido nela, pela primeira vez, questões relativas apenas ao ser humano e ao seu convívio em sociedade.

De origem humilde, o filósofo era filho de um artesão e de uma parteira. Em sua juventude, chegou a exercer o ofício do pai. Também participou de campanhas militares, tendo lutado na Guerra do Peloponeso, por volta de 431 a.C., em que se mostrou um soldado corajoso, justo e de grande resistência física.

Por ter mudado o curso da filosofia de seu período, antes de tradição cosmológica, Sócrates iniciou o Período Antropológico da Filosofia Antiga. A partir de Sócrates, a filosofia passa a se dedicar a questões inteiramente humanas, voltadas para o conhecimento racional e para questões que resultam da ação humana, como política, moral e justiça.

Ainda jovem, Sócrates teria visitado o templo de Apolo, em Atenas, fato que o marcou duplamente, pois:

  1. A inscrição gravada no pórtico continha a frase “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses” e inspirou o filósofo a buscar o seu autoconhecimento e disseminar essa ideia por Atenas. Segundo o pensador, o autoconhecimento seria o primeiro passo para uma vida plena e uma filosofia autêntica.
  2. Conhecido pela modesta frase “só sei que nada sei”, o filósofo foi considerado pelo oráculo de Delfos o mais sábio dos gregos. Esse fato foi interpretado por Sócrates como uma missão importante que ele deveria espalhar por Atenas, conversando com as pessoas. O pensador passou a se considerar um “vagabundo loquaz”, pois vagava por Atenas conversando com as pessoas na tentativa de retirar delas mesmas o conhecimento.

Tudo o que se conhece da filosofia de Sócrates, hoje, foi extraído dos escritos sobre ele e, principalmente, dos diálogos platônicos, que, em sua maioria, Sócrates aparece como personagem principal.

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Método socrático (Ironia e Maiêutica)

O filósofo, proclamado como o mais sábio dos homens pelo oráculo, entendia que ele mesmo não ensinava nada a ninguém. Ele apenas fazia as pessoas pensarem por conta própria. Com seu método, ele induzia as pessoas a reconhecerem a sua própria ignorância e a formularem as suas próprias ideias.

Sócrates considerava-se uma espécie de “parteiro de ideias”, pois ele não criava ideias novas, apenas as retirava da mente das pessoas. Seu papel era, segundo ele mesmo, sempre dialogar e questionar, nunca aceitando um conhecimento prévio como uma verdade indiscutível sem antes analisar e criticar aquilo que era dito.

Podemos dizer que o método de diálogo socrático é resumido em dois passos:

  • Maiêutica – uma forma de fazer sucessivas perguntas sobre um mesmo assunto, a fim de  chegar a um conceito ou uma definição de algo.
  • Ironia – uma forma de mostrar ao interlocutor que a resposta, que a pessoa julgava estar correta, era, na verdade, um engano.

Com o seu método, o pensador julgou levar a capacidade de pensar por conta própria e questionar o conhecimento estabelecido ao povo ateniense, estabelecendo uma nova maneira de se proceder filosoficamente e de combater o relativismo das opiniões.

Sócrates e a Atenas Clássica

Tendo vivido em uma época de efervescência cultural e política em Atenas, Sócrates pegou uma boa herança filosófica de personalidades anteriores a ele, como Tales, Pitágoras e Parmênides, além de ter sido contemporâneo aos sofistas, mestres da retórica e defensores do relativismo, duramente combatidos por Sócrates.

O sistema político democrático ateniense permitia que os cidadãos participassem dos Poderes Legislativo e Judiciário, o que necessitava um certo preparo intelectual, o que Sócrates, desde sua juventude, buscou, além de ter procurado estabelecer-se naquilo que era considerado louvável para a educação de um jovem grego: esportes, retórica e ciências.

Sócrates, por sua inquietação filosófica e constante questionamento da ordem vigente, despertou a curiosidade e admiração dos jovens e a ira dos políticos poderosos de Atenas. “Diante de qualquer forma de governo e de qualquer autoridade constituída, Sócrates prestava primeiro obediência aos ditames de sua própria consciência[i], fato que acarretou acusações contra o filósofo, que resultaram em seu julgamento e sua condenação à morte.

Morte de Sócrates

Em 199 a.C., uma acusação por parte do poeta Meleto e do político Anitos levou Sócrates a se defrontar com o Tribunal dos Heliastas, “constituído por cidadãos provenientes de dez tribos que compunham a população de Atenas e escolhidos, por meio da tiragem de sorte”[ii]. A missão do tribunal não era fácil: ele deveria julgar Sócrates, figura, às vezes, um pouco incômoda, mas conhecido por ser justo. “A acusação era grave: não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e corromper a juventude[iii].

Sócrates foi julgado, basicamente, por sua atitude questionadora, que nunca aceitava o que era estabelecido sem que antes fosse criteriosamente analisado. Em sua defesa, Sócrates não apelou às súplicas pela misericórdia, comuns na época, limitando-se a apresentar argumentos consistentes, a favor de sua inocência. O filósofo defendia que era seu papel ali apenas convencer o júri da verdade, e não partir para a apelação.

A maioria dos membros do tribunal, por uma pequena diferença de pouco mais de 60 votos, vota por sua condenação. O acusador Meleto exigia a pena de morte, mas fora concedida a Sócrates a possibilidade de ele fixar uma sentença que poderia ou não ser acatada pelo júri, sendo sugerido, pelo júri, o exílio e, por seus amigos, o pagamento de uma multa. Sócrates não aceitou nem um e nem outro. O exílio traria a abdicação dos direitos políticos, algo que o filósofo jamais se submeteria. O pagamento da multa ou cumprimento de outra sentença similar, segundo Sócrates, também significaria a aceitação da acusação. A fim de preservar sua honra, o pensador grego manteve firmeza e aceitou a pena de morte.  

Em Defesa de Sócrates, texto de Xenofonte que narra o julgamento do filósofo, o discípulo escreveu as palavras de seu mestre e amigo (Sócrates salvou a vida de Xenofonte na guerra, tendo tornado seu amigo e mentor desde então), após a condenação, da seguinte maneira:

– Cidadãos! Tanto aqueles que dentre vós induzistes as testemunhas a perjurarem, levantando falso testemunho contra mim, quanto os que vos deixastes subornar, deveis, de força, sentir-vos culpados de grande impiedade e injustiça. Mas eu, por que haveria de crer-me empequenecido se nada se comprovou do que me acoimam? Jamais ofereci sacrifícios a outras divindades [...]. Quanto aos jovens, seria corrompê-los, habituá-los à paciência e à frugalidade? Atos contra os quais a lei pronuncia a morte, como a profanação dos templos, o roubo com efração, a venda de homens livres, a traição à pátria, meus próprios acusadores não ousam dizer que os haja cometido. Surpreso pois, pergunto a mim mesmo qual o crime por que me condenais à morte. [...] Estou certo que tanto quanto o passado, me renderá o porvir o testemunho de que nunca fiz mal a ninguém, jamais tornei ninguém mais vicioso, mas servia os que comigo privavam ensinando-lhes sem retribuição tudo o que podia de bem.”[iv]

Sócrates recebeu o cálice de veneno e bebeu, sem pestanejar, sem tentar qualquer subterfúgio e mantendo-se sempre altivo e honrado. A morte de Sócrates aconteceu, porque ele teve a coragem que muitos não tiveram: a coragem de questionar o poder estabelecido. O filósofo morreu em 399 a.C. aos 71 anos de idade.

A morte de Sócrates, em pintura de Jacques Louis David (1787).
A morte de Sócrates, em pintura de Jacques Louis David (1787).

Resumo

  • Jovem ateniense de família simples;
  • Foi um exímio esportista e um corajoso soldado;
  • Foi considerado o mais sábio dos homens da Grécia;
  • Foi mestre de Platão e aparece como personagem na maioria dos diálogos socráticos;
  • Inaugura o período antropológico da filosofia grega, o que confere importância ao pensamento socrático;
  • Dialogava com as pessoas por meio de seus métodos: a ironia e a maiêutica;
  • Considerava-se um parteiro de ideias;
  • Contra o relativismo das opiniões;
  • Questionador e subversivo;
  • Acusado por corrupção dos jovens e traição aos deuses;
  • Foi julgado e condenado à morte.

Frases

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses” - Essa frase não é de Sócrates. Ela estava entalhada no pórtico do templo dedicado ao deus Apolo, e Sócrates tomou-a como lema para a sua vida e sua filosofia.

“Só sei que nada sei.”

“Não penses mal dos que procedem mal, pense que estão equivocados.”

“Em cada um de nós há dois princípios que nos dirigem e governam, cuja orientação que seguimos onde quer que eles podem levar, sendo um o desejo inato pelo prazer, o outro, um julgamento adquirido que aspira a excelência.”

“A admiração é o sentimento de um filósofo, e a filosofia começa pela admiração.”


[i]PESSANHA, J. A. M. Sócrates – vida e obra. In: SÓCRATES. Os pensadores. Seleção, introdução e notas de José Américo Motta Pessanha. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 17.

[ii]Ibidem, p. 7.

[iii]Ibidem, p. 8.

[iv]XENOFONTE. Apologia de Sócrates. Trad. Líbero Rangel de Andrade. In: SÓCRATES. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 164.