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E o sertão não virou mar: a Guerra de Canudos

Por: Tales Pinto Charge de Angelo Agostini (1843-1910) sobre Antônio Conselheiro, publicada na Revista Ilustrada, em 1896

Charge de Angelo Agostini (1843-1910) sobre Antônio Conselheiro, publicada na Revista Ilustrada, em 1896

Um dos principais conflitos armados da história da República brasileira ocorreu nos seus primeiros anos de vigência. Em 1896, iniciou-se o envio de tropas para enfrentar os habitantes do arraial de Belo Monte, localizado nas margens do rio Vaza-Barris, em área conhecida como Canudos, no interior da Bahia. O objetivo da Guerra de Canudos era acabar com o arraial liderado pelo beato Antônio Conselheiro, considerado um centro de resistência dos adeptos da monarquia contra a nascente República. Foram necessárias quatro expedições para por fim ao arraial.

Além da acusação de monarquismo que era dirigida aos habitantes de Canudos – já que eram contra o pagamento de impostos criados pela República, bem como ao casamento civil – a organização do arraial incomodava os poderosos latifundiários do sertão baiano.

Não havia circulação monetária em Canudos e a subsistência dos habitantes era conseguida com a agricultura, a produção de gado bovino e caprino, além de uma produção artesanal. Mas a produção de couro garantia um comércio com as localidades vizinhas, gerando dinheiro para suprir algumas mercadorias que não eram conseguidas em Canudos.

O arraial que chegou, segundo algumas estimativas, a ter cerca de 25 mil habitantes, tornando-se o maior aglomerado humano do interior da Bahia, tinha suas casas, escolas e igrejas construídas em sistema de mutirão. A migração de uma grande quantidade de sertanejos para viver no arraial e fugir das péssimas condições de vida nas áreas do coronelismo ameaçava o oferecimento de força de trabalho para trabalhar nos latifúndios. O principal responsável por essa situação, segundo o Estado e os latifundiários, era o líder Antônio Conselheiro.

Nascido em 1830, no sertão cearense, Antônio Vicente Mendes Maciel era um negociante e professor, que depois de problemas conjugais, passou a peregrinar pelo sertão nordestino a partir da década de 1870. Pregando o catolicismo, mas de forma distinta do que era feito pela Igreja Católica, Antônio Conselheiro conseguiu o apoio de inúmeros fiéis que passaram a acompanhá-lo. Em suas andanças, Conselheiro e seus fiéis viviam de esmola para a subsistência, com a qual compravam um pouco de gado, auxiliando ainda na reforma e construção de igrejas e cemitérios em várias cidades e comunidades sertanejas. Sua forma de vida, despojada de muitos bens materiais, o identificava com a vida no sertão.

Sobreviventes do massacre do arraial de Canudos.*

Sobreviventes do massacre do arraial de Canudos.*

Depois de quatro incidentes com a polícia da Bahia, Conselheiro e seu grupo decidiram fundar uma comunidade nas margens do Vaza-Barris, em junho de 1893, a qual denominaram de Belo Monte. Inicialmente utilizaram cerca de 50 casas que havia no local, ampliando posteriormente as habitações e demais edificações. O sistema de organização social existente em Belo Monte era comunitário, cultivando, colhendo e construindo através da cooperação entre os habitantes.

A prosperidade de Canudos incomodou o Estado, já que não aceitavam inúmeras imposições feitas a eles, e os detentores do poder econômico da região, que viam a migração como ameaça à ordem sertaneja, dominada pelos latifundiários. A igreja também não concordava com o enorme prestígio religioso que Conselheiro passou a ter.

Com esses inimigos, o arraial de Belo Monte começou a ser assediado em novembro de 1896. Neste conflito, considerado o primeiro de quatro expedições enviadas para por fim ao arraial, os conselheristas conseguiram conter as forças policiais baianas na localidade Uauá, com um saldo de 80 mortos e cerca de duzentos feridos. A segunda expedição, em janeiro de 1897, formada por tropas de soldados baianos, também foi vencida antes mesmo de chegar ao arraial.

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Com as derrotas, o governo do estado da Bahia pediu o auxílio de tropas do exército federal. Reforços foram enviados em fevereiro de 1897, sob a liderança do coronel Moreira César, apelidado de “corta-cabeças”, em virtude da repressão efetuada contra os federalistas em Santa Catarina. A terceira expedição estava fortemente armada, mas a prepotência do coronel e astúcia militar dos sertanejos criaram as condições para os conselheristas infligirem uma séria derrota às tropas federais de 1,3 mil homens. Moreira César morreu na batalha e parte dos soldados fugiu pela caatinga, deixando para trás um grande número de armamentos e munições que serviram aos habitantes de Canudos para continuar sua resistência.

A derrota de Moreira César teve repercussão enorme na capital da República, ampliando a acusação de monarquismo a Conselheiro e criando um clima propício a uma nova expedição. A quarta expedição, liderada pelo general Arthur Oscar contou com 7 mil soldados e 18 “matadeiras”, canhões de origem alemã utilizados para destruir o arraial. Os combates se iniciaram em junho 1897 e, em agosto, o ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, dirigiu-se para a região com mais 3 mil homens.

Antônio Conselheiro morreu em 22 de setembro, de doença. Seu corpo foi enterrado sem cabeça, já que esta foi enviada ao médico eugenista Nina Rodrigues, que acreditava que Conselheiro era um mestiço e “degenerado”. A medição da massa de seu cérebro demonstrou que era maior que a da média.

Fotografia do corpo de Antônio Conselheiro, líder de Canudos. **

Fotografia do corpo de Antônio Conselheiro, líder de Canudos. **

Em 1 de outubro de 1897 ocorreu a batalha decisiva, pondo fim à guerra e garantindo a vitória às tropas federais. Canudos foi totalmente destruído.

Segundo o historiador Marco Antônio Villa, em Canudos “foi possível integrar as necessidades econômico-sociais às religiosas, concretizando plenamente o que para o sertanejo nunca deveria estar dissociado: a religião e a vida. Assim, Belo Monte acabou se constituindo na materialização do sonho sertanejo e, mesmo sem o querer, em obstáculo ao pleno domínio do coronelismo.”¹

Euclides da Cunha, que acompanhou as tropas federais na última expedição, escreveu Os Sertões, a partir de suas anotações de viagem, transformando o livro em um clássico da literatura nacional. O sertão não virou mar, contrariamente ao que havia previsto Conselheiro, já que a população do sertão nordestino ainda continua a viver, em muitos casos, em condições semelhantes à época da Guerra de Canudos. A memória deste conflito é mantida viva, principalmente através da literatura de cordel, em que Conselheiro e Moreira César são geralmente os personagens principais.

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[1] A aurora de Belo Monte. MARCO ANTONIO VILLA, especial para a Folha.
* Crédito da Imagem: Lago, Bia Corrêa do. Os fotógrafos do Império: a fotografia brasileira no Século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2005.
** Crédito da Imagem: Vasquez, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.


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