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Movimento abolicionista: de elite ou popular?

Permeado por diversas correntes, o movimento abolicionista no Brasil foi realizado tanto por setores da elite quanto por camadas populares da sociedade brasileira.

Por: Tales Pinto Gravura Negros de carro, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

Gravura Negros de carro, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

 O movimento abolicionista nas últimas décadas do Império constituiu um dos principais pilares contra a permanência da escravidão no Brasil. Outro pilar de luta contra a escravidão era a própria ação dos escravos, caracterizadas por rebeliões, fugas em massas e recorrências aos tribunais para conseguirem sua liberdade.

Para alguns grupos sociais do Império os dois pilares da luta contra a escravidão – movimento abolicionista e ação autônoma dos cativos contra a escravidão – deveriam convergir em atuações conjuntas. Para outros grupos sociais os dois pilares não deveriam convergir, entendendo que o movimento abolicionista deveria ser conduzido sem a participação dos escravos.

Tal situação refletia a existência de diversos grupos interessados no fim da escravidão, que iam desde monarquistas a republicanos, de grandes latifundiários a ex-escravos. Entretanto, é possível destacar a existência de dois tipos de movimento abolicionista no Brasil do século XIX, que genericamente pode ser divido entre o movimento abolicionista das elites e o movimento abolicionista popular.

Os principais expoentes do movimento abolicionista das elites podem ser encontrados, por exemplo, em organizações como a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, criada em 1880 e liderada por Joaquim Nabuco. Ou na Confederação Abolicionista, fundada por José do Patrocínio e outros militantes em 1883.

Outros setores da sociedade se posicionavam naquele momento da história do Brasil também contra a reprodução da escravidão, como entre os oficiais do exército, que se recusaram a cumprir sua função de capitães-do-mato. Ou mesmo grandes latifundiários de São Paulo, que viam a escravidão como um obstáculo a um maior desenvolvimento econômico de seus empreendimentos.

Estes grupos pretendiam alcançar a abolição da escravidão do Brasil através de meios pacíficos e legais, sob a tutela do Estado e, em muitos casos, de forma gradual e com indenizações aos investimentos realizados pelos proprietários dos cativos.

Posturas como essas indicam uma preocupação. A de que as fugas em massas e as rebeliões de escravos fugissem do controle caso fossem apoiadas, criando um clima de revolta social generalizada no Brasil. Era a preocupação das elites de que as classes perigosas da sociedade não mais aceitassem a situação de miséria e exploração a que estavam submetidas, e se voltassem contra seus senhores.

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A própria legislação abolicionista era uma resposta à ação dos escravos, como uma forma de conter a escalada de fugas e violências contra os senhores.

Porém, havia grupos sociais em várias partes do país que viam a necessidade de apoiar a luta dos escravos de forma direta e prática. Luiz Gama era uma dessas pessoas. Vendido como escravo pelo pai na infância, Gama conseguiu sua alforria. Estudou e passou a advogar. Nessa função atuou nos tribunais conseguindo a libertação de mais de quinhentos escravos.

No Ceará, o jangadeiro e ex-escravo Francisco do Nascimento passou a se recusar a transportar escravos para os navios no porto de Fortaleza no início da década de 1880. Como isso se iniciou uma onda de libertação de escravos nas cidades e fazendas da província, sem indenizações aos senhores. Em 1884, a escravidão foi abolida no Ceará. Esse tipo de ação ocorreu também na Bahia e no Rio Grande do Sul.

Na província de São Paulo, o ex-delegado, ex-promotor, ex-juíz e jornalista Antônio Bento criou o grupo dos Caifazes. Formado em sua maioria por tipógrafos, artesãos, pequenos comerciantes e ex-escravos, como Antônio Paciência, os caifazes auxiliavam na organização e fuga em massa dos escravos das fazendas. Utilizavam as ferrovias para transportar os fugidos, clandestinamente, em muitos casos para cidades como São Paulo e Santos. Nessa última cidade criaram ainda o Quilombo do Jabaquara, por onde passou mais de dez mil escravos, além de conseguir empregos para muito deles.

Os exemplos referidos servem para o leitor perceber a diversidade de formas que tomou o movimento abolicionista no Brasil. Indicando que o início do processo de modernização capitalista da sociedade brasileira necessitava de encerrar com a escravidão. E como em todos os outros momentos da história do país, esse encerramento se deu forma violenta, colocando os grupos sociais em lados opostos nos conflitos sociais.