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Movimento abolicionista: de elite ou popular?

Permeado por diversas correntes, o movimento abolicionista no Brasil foi realizado tanto por setores da elite quanto por camadas populares da sociedade brasileira.

 O movimento abolicionista nas últimas décadas do Império constituiu um dos principais pilares contra a permanência da escravidão no Brasil. Outro pilar de luta contra a escravidão era a própria ação dos escravos, caracterizadas por rebeliões, fugas em massas e recorrências aos tribunais para conseguirem sua liberdade.

Para alguns grupos sociais do Império os dois pilares da luta contra a escravidão – movimento abolicionista e ação autônoma dos cativos contra a escravidão – deveriam convergir em atuações conjuntas. Para outros grupos sociais os dois pilares não deveriam convergir, entendendo que o movimento abolicionista deveria ser conduzido sem a participação dos escravos.

Tal situação refletia a existência de diversos grupos interessados no fim da escravidão, que iam desde monarquistas a republicanos, de grandes latifundiários a ex-escravos. Entretanto, é possível destacar a existência de dois tipos de movimento abolicionista no Brasil do século XIX, que genericamente pode ser divido entre o movimento abolicionista das elites e o movimento abolicionista popular.

Os principais expoentes do movimento abolicionista das elites podem ser encontrados, por exemplo, em organizações como a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, criada em 1880 e liderada por Joaquim Nabuco. Ou na Confederação Abolicionista, fundada por José do Patrocínio e outros militantes em 1883.

Outros setores da sociedade se posicionavam naquele momento da história do Brasil também contra a reprodução da escravidão, como entre os oficiais do exército, que se recusaram a cumprir sua função de capitães-do-mato. Ou mesmo grandes latifundiários de São Paulo, que viam a escravidão como um obstáculo a um maior desenvolvimento econômico de seus empreendimentos.

Estes grupos pretendiam alcançar a abolição da escravidão do Brasil através de meios pacíficos e legais, sob a tutela do Estado e, em muitos casos, de forma gradual e com indenizações aos investimentos realizados pelos proprietários dos cativos.

Posturas como essas indicam uma preocupação. A de que as fugas em massas e as rebeliões de escravos fugissem do controle caso fossem apoiadas, criando um clima de revolta social generalizada no Brasil. Era a preocupação das elites de que as classes perigosas da sociedade não mais aceitassem a situação de miséria e exploração a que estavam submetidas, e se voltassem contra seus senhores.

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A própria legislação abolicionista era uma resposta à ação dos escravos, como uma forma de conter a escalada de fugas e violências contra os senhores.

Porém, havia grupos sociais em várias partes do país que viam a necessidade de apoiar a luta dos escravos de forma direta e prática. Luiz Gama era uma dessas pessoas. Vendido como escravo pelo pai na infância, Gama conseguiu sua alforria. Estudou e passou a advogar. Nessa função atuou nos tribunais conseguindo a libertação de mais de quinhentos escravos.

No Ceará, o jangadeiro e ex-escravo Francisco do Nascimento passou a se recusar a transportar escravos para os navios no porto de Fortaleza no início da década de 1880. Como isso se iniciou uma onda de libertação de escravos nas cidades e fazendas da província, sem indenizações aos senhores. Em 1884, a escravidão foi abolida no Ceará. Esse tipo de ação ocorreu também na Bahia e no Rio Grande do Sul.

Na província de São Paulo, o ex-delegado, ex-promotor, ex-juíz e jornalista Antônio Bento criou o grupo dos Caifazes. Formado em sua maioria por tipógrafos, artesãos, pequenos comerciantes e ex-escravos, como Antônio Paciência, os caifazes auxiliavam na organização e fuga em massa dos escravos das fazendas. Utilizavam as ferrovias para transportar os fugidos, clandestinamente, em muitos casos para cidades como São Paulo e Santos. Nessa última cidade criaram ainda o Quilombo do Jabaquara, por onde passou mais de dez mil escravos, além de conseguir empregos para muito deles.

Os exemplos referidos servem para o leitor perceber a diversidade de formas que tomou o movimento abolicionista no Brasil. Indicando que o início do processo de modernização capitalista da sociedade brasileira necessitava de encerrar com a escravidão. E como em todos os outros momentos da história do país, esse encerramento se deu forma violenta, colocando os grupos sociais em lados opostos nos conflitos sociais.  

Gravura Negros de carro, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

Gravura Negros de carro, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

Por: Tales Pinto