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Códice medieval

O códice medieval desempenhou uma função importantíssima na disseminação do cristianismo, tendo sido também o principal suporte de escrita da Idade Média.

Por: Cláudio Fernandes Páginas de um códice medieval

Páginas de um códice medieval

O códice medieval, isto é, o tipo de livro, ou suporte de escrita, que dominou o universo intelectual da Idade Média, foi desenvolvido ainda nos séculos I e II depois de Cristo, época em que ainda vigorava o rolo, ou volumen, feito de folhas de papiro. O códice (que vem do latim codex) consiste na reunião de várias folhas escritas que eram constituídas de peles de animais e costuradas em partes que podiam ser manuseadas com maior rapidez e facilidade que o rolo — exatamente como fazemos com os livros modernos que conhecemos atualmente.

As primeiras comunidades cristãs foram as responsáveis pela substituição gradual do volumen (o rolo antigo) pelo códice. Nesse sentido, a história da disseminação do códice como modelo de suporte de escrita está diretamente associada à difusão do cristianismo. Os monges e padres da Igreja Cristã primitiva empenhavam-se em conservar tanto obras da cultura judaico-cristã quanto obras da tradição clássica greco-romana, reproduzindo cópias minuciosas em pergaminhos que eram costurados em blocos, formando o códice. Este foi o principal veículo de difusão escrita do cristianismo e de conservação da cultura clássica.

O historiador francês Roger Chartier, um dos principais especialistas em história da escrita e da leitura, acentuou essa preferência dos copistas cristãos pelo códice em detrimento do rolo:

“[…] é nas comunidades cristãs que, de forma precoce e maciça, o rolo vai sendo substituído pelo códice: desde o século II, todos os manuscritos da Bíblia encontrados são códices escritos em papiros; 90% dos textos bíblicos e 70% dos textos litúrgicos e hagiográficos dos séculos II-IV que chegaram até nós apresentam-se na forma do códice. Por outro lado, é com sensível defasagem que os textos gregos, literários ou científicos, adotam a nova forma do livro. É preciso esperar o período dos séculos III e IV para que o número de códices se iguale com o dos rolos. Mesmo se a datação dos textos bíblicos sobre papiros tem sido questionada e, por vezes, retardada, até o século III, permanece forte o laço que vincula ao cristianismo a preferência dada ao códice.” (Chartier, Roger. (1994). Do códice ao monitor: a trajetória do escrito. Estudos Avançados, 8(21), p. 190)

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A partir do século VI, já na Baixa Idade Média, a formação das abadias e dos monastérios possibilitou um desenvolvimento mais esmerado da feitura do códice. Os monges copistas não escreviam suas cópias apenas para preservar os textos da tradição, mas a cópia fazia parte de sua experiência religiosa. A vida do copista estava marcada pela ruminatio (ruminação), isto é, a leitura impecável dos textos e sua cópia tinham a mesma importância que a rotina de orações e demais penitências. A feitura de um livro era encarada como uma forma de penitência e meditação.

Data dessa época também o aparecimento, entre os monges, da prática da leitura silenciosa, que se difundiu no mundo moderno. Além disso, eram também obras dos monges copistas as ilustrações dos códices, que tinham por função “iluminar os textos”. Essas imagens foram chamadas de iluminuras.