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Guerra Civil na Síria

A Guerra Civil na Síria é um conflito que se iniciou logo após o surgimento dos protestos da Primavera Árabe no país. Após anos de conflito, 500 mil pessoas já morreram.

Por: Daniel Neves Silva Retrato da destruição em Raqqa após anos de guerra*

Retrato da destruição em Raqqa após anos de guerra*

A Guerra Civil na Síria possui grande repercussão internacional e estende-se desde 2011. Esse conflito é responsável por um grande desastre humanitário e levou milhões de pessoas a se refugiar fora da Síria, além de, naturalmente, ter causado milhares de mortos (os números atuais estão em torno de 500 mil mortos).


Antecedentes do conflito

A Guerra Civil na Síria iniciou-se como consequência direta da Primavera Árabe, que foi uma série de protestos e manifestações populares que se espalharam pelas nações árabes do norte da África e do Oriente Médio exigindo melhorias democráticas e melhores condições de vida para a população na virada de 2010 para 2011.

Esses protestos iniciaram-se na Tunísia, em dezembro de 2010, e chegaram à Síria em março de 2011, quando protestos iniciaram-se na cidade de Deraa, localizada no sul da Síria. Em seguida, os protestos alcançaram cidades como Damasco (capital da Síria) e Aleppo. Os protestantes exigiam melhorias na democracia síria (o país é governado por Bashar al-Assad desde 2000 e pela família Assad desde a década de 1970).

A resposta do governo sírio foi violenta e, assim, foi utilizada a repressão para controlar os protestos que aconteciam no país. A repressão do governo resultou em novos protestos, que também foram reprimidos violentamente. A continuidade dessa situação motivou grupos de opositores a se armar e iniciar uma rebelião contra a violência das tropas governamentais.

A Guerra Civil na Síria, portanto, teve seu início motivado por disputas políticas entre opositores que se rebelaram contra a ditadura e a violência do governo de Bashar al-Assad. Com a evolução do conflito, ele assumiu proporções de sectarismo religioso (intolerância religiosa) a partir do surgimento de grupos fundamentalistas sunitas que procuram tomar o poder do país. Vale frisar que atualmente o governo sírio é secular, isto é, faz separação entre questões estatais/governamentais e princípios religiosos.

Leia também: Diferença entre sunitas e xiitas

É importante pontuar que as razões do início da guerra foram políticas e que esse conflito atualmente tem grande importância geopolítica no equilíbrio de forças no Oriente Médio. Por essa razão, diferentes nações intervieram, garantindo assim a continuidade do conflito. As nações que de alguma maneira intervieram no conflito sírio foram: Arábia Saudita, Israel, Turquia, Irã, Estados Unidos e Rússia, principalmente.


Quais são as forças que lutam na Síria?

Após mais de sete anos de duração, os grupos que atuam na guerra na Síria são distintos – cada um possui uma motivação específica. De maneira geral, os grupos integrantes do conflito podem ser organizados em tropas governamentais, grupos rebeldes moderados e grupos rebeldes fundamentalistas.

Dentro dessa divisão, faremos o destaque de alguns grupos diferentes. O primeiro destaque é o grupo conhecido como Exército Livre da Síria (ELS). Esse grupo surgiu em julho de 2011 e foi formado por opositores de Bashar al-Assad que defendiam medidas democráticas e seculares para a Síria. Esse grupo, no entanto, sofreu uma profunda alteração ideológica e atualmente é composto por diversos elementos fundamentalistas islâmicos. Além disso, aliou-se à Turquia na perseguição aos sírios curdos.

Um segundo grupo radicalizado que possui tendências de fundamentalismo islâmico é o Hayat Tahrir al Sham. Para facilitar o reconhecimento, esse grupo foi conhecido primeiro como Frente al-Nusra e, depois, como Jabhat Fateh al-Sham. Trata-se do braço armado da Al-Qaeda na Síria. São fundamentalistas sunitas e defendem a implantação de medidas ultraconservadoras.

Dentro dos grupos fundamentalistas que atuam na Síria, há também o Estado Islâmico (EI). Esse grupo surgiu como consequência da invasão americana no Iraque e no vácuo do poder que se desenvolveu naquele país. Em 2014, proclamou um califado e, durante um bom período da Guerra Civil na Síria, controlou um vasto território sírio.

O EI, no entanto, encontra-se com sua ação praticamente neutralizada na Síria, uma vez que perderam quase todos os territórios que haviam conquistado. O enfraquecimento do EI é resultado da ação internacional de Rússia e Estados Unidos, além da ação dos curdos, que, financiados pelos EUA, foram fundamentais no enfraquecimento desse grupo.

No lado dos rebeldes moderados, o grande destaque a ser feito é sobre os curdos, uma minoria étnica na Síria (corresponde a 10% da população). O levante militar dos curdos ocorreu, principalmente, por causa da ameaça representada pelo EI a partir de 2014. O EI perseguia e executava populações curdas.

Financiados pelos Estados Unidos, os curdos organizaram-se e conseguiram pouco a pouco derrotar as forças do Estado Islâmico. O grande símbolo do enfraquecimento do EI ocorreu quando os curdos conquistaram a “capital” do Estado Islâmico, a cidade de Raqqa. Os territórios dominados pelos curdos foram nomeados de Federação Democrática do Norte da Síria.

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O movimento curdo faz parte de uma luta histórica desse povo pela autodeterminação e pela criação de um Estado nacional que os abrigue. É importante frisar que os curdos formam a maior minoria étnica do mundo que não possui um Estado nacional próprio e são perseguidos enquanto minoria tanto na Síria como no Iraque e na Turquia.

Os turcos, inclusive, representam atualmente a maior ameaça à luta dos curdos. O governo turco tem sistematicamente financiado grupos fundamentalistas islâmicos (como o ELS) para que esses grupos lutem contra os curdos. Além disso, a própria Turquia tomou parte na guerra. No começo de 2018, tropas turcas estavam em território sírio lutando contra os curdos em Afrin.

Por fim, há também as tropas governamentais de Bashar al-Assad, que lutam pela continuidade de Bashar no poder. A permanência de Bashar no poder da Síria esteve gravemente ameaçada em meados de 2015, mas a intervenção russa no conflito e o apoio iraniano fortaleceram a resistência. Atualmente a posição de Bashar está bem assegurada.


Intervenção internacional

A Guerra Civil na Síria é, nos dias atuais, um dos conflitos de maior importância geopolítica. Diferentes atores atuam direta ou indiretamente no conflito como forma de garantir os seus interesses no Oriente Médio.

Os russos entraram na guerra em meados de 2015 sob a alegação de combate ao terrorismo. No entanto, há dois pontos importantes a se considerar sobre os interesses russos. Primeiro, a Síria é um dos principais aliados da Rússia na região e, por isso, a manutenção de Bashar al-Assad no poder é fundamental. Além disso, existe um interesse russo em diminuir a influência americana na região.

No caso do Irã, os interesses, em grande parte, convergem com os interesses russos. Há uma intenção iraniana em diminuir a influência americana na região e um interesse em diminuir a influência da Arábia Saudita (nação que exporta a ideologia que alimenta grupos fundamentalistas como o Hayat Tahrir al Sham). Por fim, a continuidade de Bashar al-Assad no poder é importante porque garante ao Irã a possibilidade de continuar financiando o Hezbollah no Líbano.

Veja também: Wahhabismo, a ideologia que alimenta o fundamentalismo islâmico.

Os Estados Unidos possuem uma postura ambígua em relação à Síria desde o governo de Barack Obama. No início da turbulência síria, os americanos armaram grupos rebeldes e sabe-se hoje que essas armas caíram nas mãos de jihadistas. Atualmente os EUA mantêm uma posição de não apoiar grupos que geram desconfiança no governo de Washington (como o ELS) e também apoiam os curdos, principalmente na luta contra o EI.

Os turcos, conforme mencionado, atuam na Síria principalmente no combate aos curdos, uma vez que o governo turco teme que o fortalecimento dos curdos sírios repercuta em movimentos de rebeliões dos curdos turcos. No entanto, há uma intenção do governo turco de reorientar a política síria de maneira que isso possibilite a sua ascensão como uma terceira potência no Oriente Médio.


Desastres humanitários

A Guerra Civil Síria é atualmente um dos maiores desastres humanitários em curso. Estima-se que a guerra tenha causado a morte de cerca de 500 mil pessoas e que mais de 10 milhões de pessoas tenham fugido de suas casas – metade delas procurou abrigo fora da Síria. Muitos dos refugiados sírios foram para a Europa, o que deu início a uma crise imigratória profunda na Europa.

Além disso, há de se destacar que os bombardeios realizados por tropas russas e sírias resultaram na morte de milhares de pessoas, inclusive milhares de crianças. O EI também foi responsável por inúmeras execuções nas diferentes regiões da Síria que dominou. Os atos de maior repercussão foram os três ataques químicos conduzidos contra civis na guerra.

Os ataques químicos foram atribuídos por observadores internacionais como ações conduzidas pelo governo de Bashar al-Assad e aconteceram em 2013, 2017 e 2018 contra uma região do subúrbio de Damasco, contra Khan Sheikhoun e mais recentemente contra Guta Oriental.

*Créditos da imagem: Tomas Davidov e Shutterstock

Aproveite para conferir a nossa videoaula sobre o assunto: