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Álvares de Azevedo

Durante a segunda geração do Romantismo, atestam-se formas e expressões voltadas para o escapismo, egocentrismo, subjetivismo ao extremo, desejo de morte, ente tantos outros aspectos. E entre aqueles que tão bem representaram esse perfil se encontra Álvares de Azevedo – o poeta multifacetado. A razão de tal multiplicidade pode ter resquícios na própria condição de ser de Álvares, visto que sua produção literária se deu quando ainda adolescente, visto que, por ironia do destino, veio a falecer precocemente.

Além desse aspecto acima ressaltado, o artista em questão se mostrou bastante influenciado por Byron – escritor inglês que muito se destacou no cenário artístico europeu; bem como por Musset – poeta, novelista e dramaturgo francês do século XIX.
Ao tracejar seu perfil poético, nota-se uma evidente dualidade: de um lado alguém que se mostra impotente diante da realidade mundana; de outro uma pessoa que luta para atingir algo maior, absoluto. Sendo assim, sua criação oscila entre esses dois extremos: um vigor cultuado pela juventude, ora mesclando-se a um cansaço pungente; um apego à vida misturado à ânsia de morte; uma visão concreta, consciente, mas ao mesmo tempo cercada por um intenso traço de abstração, revelando o lado inconsciente de ser; uma visão neoplatônica do amor adornada por um intenso desejo de concretização material, cujos traços notadamente se fazem vistos em uma de suas criações, intitulada Pálida Inocência:

[...]

Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t'embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!

Esta representa apenas uma das três faces cultuadas pelo autor, materializada por uma fase sentimental, ingênua, cheia de sonhos adolescentes. Outra delas se caracteriza por uma fase macabra, fruto de um amadurecimento precocemente atingido. Nessa fase se evidenciam rituais satânicos, revelados por uma visão descrente e pessimista do autor frente ao mundo que o rodeia, como bem podemos conferir em Noite na taverna. Na última delas, considerada a terceira fase, notamos traços de superação do Romantismo, demarcados pelo emprego da ironia e da irreverência – aspectos que mais tarde seriam cultuados pelos representantes do Modernismo. Observa-se nela que o poeta zomba do amor idealizado, antes cultivado, bem como do sentimentalismo exagerado, idem a manifestações anteriores. Constate tal fator, pois, por meio de mais uma criação: 

A Lagartixa
  
A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão dos teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

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Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores;
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amores.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo no sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.

Firmados todos esses pressupostos, verifique alguns dados biográficos deste ímpar representante. Nasceu, em 1831, Manuel Antônio Álvares de Azevedo, cujo parto foi realizado na biblioteca de seu avô materno, em São Paulo. Aos dez anos de idade já falava e lia perfeitamente o francês e o inglês (foi tão audacioso, que chegou até a arriscar alguns versos nesses idiomas). 

Completados seus dezesseis anos, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na pensão onde morou para cursar a graduação, escrevia na parede do quarto o nome dos colegas que iam falecendo curiosamente. Quando chegaram as férias que precederam o último ano de faculdade (o quinto, portanto) resolveu fazer uma viagem à fazenda de seus parentes, onde foi vitimado por um tombo, quando andava a cavalo. Com isso teve de ser operado, embora tenha resistido por apenas quarenta dias após a cirurgia. Sua morte foi agravada não somente por esse problema, mas também por uma “suposta”, como afirmam os estudiosos, febre amarela. Infelizmente perdemos esse grande representante de forma precoce, aos 20 anos de idade.

Por essa razão, sua obra, Lira dos vinte anos, teve de ser postumamente publicada, sendo dividida em duas partes, conforme vontade do próprio autor. A primeira em 1853; e a segunda, vinte anos mais tarde. Nela, os editores acrescentaram ainda uma terceira parte, constituída dos últimos poemas. Essas reedições sucessivas contêm as seguintes criações: Poesias diversas, O poema do frade, O conde Lopo (poema narrativo), Macário (teatro), Noite na taverna (narrativas fantásticas), Livro de Fra Gondicário (diário), Discursos e Cartas.   

Álvares de Azevedo foi um dos maiores representantes da segunda geração romântica

Álvares de Azevedo foi um dos maiores representantes da segunda geração romântica

Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte