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Castro Alves

Por: Vânia Maria do Nascimento Duarte Castro Alves: O poeta dos escravos

Castro Alves: O poeta dos escravos

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em Curralinho, na Bahia, em 1847. Estudou Humanidades no Ginásio Baiano e, desde esse período, começou a escrever seus primeiros versos. Em 1862 foi para Recife no intuito de cursar Direito. Vivendo lá e aproveitando-se de suas ideias liberais, engajou-se na campanha abolicionista, dando propulsão à sua produção poética. Nessa mesma época conheceu a atriz portuguesa Eugênia, com quem manteve um relacionamento durante cinco anos. Em 1867 foi com ela para Salvador, onde obtiveram grande notoriedade no cenário social. Um ano depois, em 1868, chegou a São Paulo e retomou seus estudos acadêmicos, matriculando-se na Faculdade de Direito  
do Largo São Francisco. Foi lá que teve seu relacionamento interrompido, mergulhando, assim, num tremendo estado depressivo. Nessa época também, numa aventura de caça, por meio de um acidente, feriu o pé – fato que o levou à amputação desse membro.

Em 1869 retornou à Bahia e publicou o livro Espumas Flutuantes, única obra publicada em vida. Em 1871 teve seu estado de saúde novamente desequilibrado, uma vez que a tuberculose já o tinha acometido. Em razão disso, faleceu em 6 de julho de 1871, ainda jovem, com apenas 24 anos.  

A produção artística desse nobre representante de nossas letras se subdivide em três vertentes básicas: a do gosto pela natureza, a poesia lírico-amorosa e a poesia social – a qual lhe rendeu o título de “o poeta dos escravos”. Mesmo na primeira delas, o poeta se mostra como um verdadeiro revolucionário, dada a sua concepção frente à figura feminina, ou seja, uma figura mais próxima da realidade, uma mulher já não mais vista somente como um ser intocável, mas sim de carne e osso, que desperta desejo e seduz – razão pela qual o relacionamento amoroso para ele não era visto sob um plano espiritual, mas material, possível de ser concretizado. Sob tais perspectivas, analisemos uma de suas criações: 

Adormecida

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

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Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."

Passemos adiante, agora falando acerca de sua outra vertente – a chamada poesia condoreira. Para entendê-la melhor, há a necessidade de voltarmos ao contexto cultural que tanto demarcou a era em questão. Em 1865, o Brasil era influenciado pelas ideias “importadas”, cujos ideais revolucionários, sobretudo retratados pelo Manifesto Comunista, de Marx e Engels, revelavam-se como efervescentes, apontando, assim, uma nova postura ideológica contra a burguesia, ansiando por mudanças no plano político e fazendo com que o pensamento republicano ganhasse ainda mais vigor.

Foi exatamente nesse desejo de libertação que as manifestações artísticas tiveram seu apogeu – daí serem denominadas condoreiras. Em oposição ao instinto subjetivo, sobretudo demarcado pela segunda fase romântica, tais manifestações se caracterizaram pelo instinto de denúncia, engajadas na luta em prol de uma sociedade mais igualitária. Tiveram como símbolo dessa corrente ideológica o condor, uma ave com capacidade de voar bem alto, fazendo referência ao desejo de também gritar alto, de deixar vir à tona todo aquele desejo de libertação que desejavam imprimir na arte. Essa poesia é também chamada de hugoana, por ter o escritor francês, Victor Hugo, como uma figura bastante influente.

Vejamos, pois, outra criação de Castro Alves, intitulada Navio Negreiro (ainda que se trate somente de alguns fragmentos):

[...]

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

[...]

Vemos que por meio da palavra poética, Castro Alves revela todo seu descontentamento diante das instituições passadistas, em especial do poder monárquico. Assim, fazendo alusão ao período escravocrata, deixa emergir todos os seus ideais republicanos, em favor da causa abolicionista.