Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, ao lado de Luís de Camões, é considerado o maior poeta da literatura portuguesa. Seus heterônimos são a principal característica de sua obra.

Por Luana Castro Alves Perez
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Faleceu na mesma cidade, no dia  29 de novembro de 1935, aos 47 anos
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Faleceu na mesma cidade, no dia 29 de novembro de 1935, aos 47 anos
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(...) Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo (...)”.

O fragmento acima é parte do poema Tabacaria, um dos mais famosos da obra do poeta português Fernando Pessoa. Pessoa, que ao longo de sua carreira literária produziu em língua portuguesa e inglesa, é considerado um dos grandes poetas da literatura ocidental.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 13 de junho de 1888. Por força do ofício de seu padrasto, um cônsul português, viveu sua infância na cidade de Durban, na África do Sul, onde aprendeu inglês, língua na qual produziu grande parte de sua obra. O vasto conhecimento no idioma permitiu que o poeta traduzisse grandes títulos da literatura universal, entre eles Edgar Allan Poe, Shakespeare e Lord Byron. Poucos sabem, mas o único livro publicado em língua portuguesa quando Fernando Pessoa ainda era vivo foi a obra Mensagem, isso porque associamos imediatamente o nome do poeta à literatura lusófona.

É na obra de Fernando Pessoa que encontramos a melhor exemplificação para o fenômeno da heteronímia: o poeta criou personagens cujas identidades literárias eram diversas, cada qual com suas particularidades e biografias, o que fez dos heterônimos a principal característica de sua obra. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis assinam vários poemas do escritor, enquanto Bernardo Soares, um semi-heterônimo, assina a obra Livro do desassossego, um dos mais aclamados de sua bibliografia.

Uma das maiores obras de Fernando Pessoa, o Livro do desassossego, é assinado pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, uma espécie de alter ego do poeta
Uma das maiores obras de Fernando Pessoa, o Livro do desassossego, é assinado pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, uma espécie de alter ego do poeta

A obra de Fernando Pessoa está associada ao Modernismo português. Foi um dos criadores e diretores da revista Orpheu, principal divulgadora dos ideais modernistas. Figura, ao lado de nomes como Mário de Sá-Carneiro, Luiz de Montalvor e Ronald de Carvalho, entre os mais importantes nomes do movimento, tendo sido considerado pelo crítico literário Harold Bloom um dos melhores escritores da literatura universal e, ao lado de Camões, o maior poeta da literatura portuguesa. Sua obra foi reconhecida postumamente e, assim como outros nomes da literatura, viveu sem imaginar a dimensão de sua genialidade e o impacto que seus livros provocariam na crítica e no público. Dedicou boa parte de sua vida à tradução de cartas comerciais para empresas estrangeiras, por esse motivo, publicou apenas dois livros, 35 sonnets e Mensagem, obra em que apresenta o glorioso passado de Portugal.

Os últimos quinze anos de sua vida foram vividos ao lado da mãe, já viúva, e de sua irmã, na cidade de Lisboa. Faleceu no dia 29 de novembro de 1935, quanto tinha apenas 47 anos de idade, vítima de uma pancreatite aguda, embora a causa de sua morte ainda gere controvérsias entre os pesquisadores de sua biografia. A casa do poeta hoje abriga um centro cultural conhecido como a Casa Fernando Pessoa, espaço inaugurado em 1993 que preserva a memória do poeta e também difunde a literatura portuguesa. Para você conhecer um pouco mais da versatilidade poética desse gênio enigmático da literatura, o Alunos Online escolheu três poemas de três heterônimos de Fernando Pessoa para você ler e admirar a beleza de seus versos. Boa leitura!

A principal característica de Alberto Caeiro é a forte ligação com a natureza e a negação de qualquer tipo de pensamento filosófico
A principal característica de Alberto Caeiro é a forte ligação com a natureza e a negação de qualquer tipo de pensamento filosófico

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor 
Tenho interesse no que cheira. 
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. 
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. 
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. 
São coisas que se sabem por fora. 
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça. 
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira. 
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver. 

Alberto Caeiro

Entre todos os heterônimos, Álvaro de Campos foi o único a apresentar fases poéticas diferentes: foi decadentista, futurista e niilista
Entre todos os heterônimos, Álvaro de Campos foi o único a apresentar fases poéticas diferentes: foi decadentista, futurista e niilista

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Álvaro de Campos

Concebida no estilo Neoclássico, a poesia de Ricardo Reis caracteriza-se pelo emprego de uma linguagem culta e precisa, distante de espontaneidade
Concebida no estilo Neoclássico, a poesia de Ricardo Reis caracteriza-se pelo emprego de uma linguagem culta e precisa, distante de espontaneidade

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem: outros, fitos 
Os mesmos olhos no futuro, veem 
O que não pode ver-se. 

Por que tão longe ir pôr o que está perto — 
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo. 

Perene flui a interminável hora 
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto 
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele. 


Ricardo Reis

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