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Machado de Assis

A crítica sutil, a fina ironia e o talento para traçar perfis psicológicos fizeram de Machado de Assis o maior escritor da Literatura brasileira.

Por: Luana Castro Alves Perez Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro no dia 21 de junho de 1839. Faleceu em sua cidade natal em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos

Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro no dia 21 de junho de 1839. Faleceu em sua cidade natal em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos

(...) Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. (…) Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

(Fragmento final do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis)

O último trecho de uma das mais famosas obras de nossa Literatura brasileira representa magistralmente a filosofia machadiana. Obra que revolucionou o romance brasileiro, seja por sua temática, seja por sua incomum técnica narrativa, Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta para o leitor as principais características da obra de Machado de Assis. Escritor do Realismo, embora não tenha adotado em sua Literatura a mesma agressividade de seus contemporâneos, como o escritor português Eça de Queirós, Machado foi reconhecido mundialmente por sua fina elegância, presente até mesmo no mais ácido dos comentários. Sua perspicácia para entender tipos e investigá-los psicologicamente criou personagens verossímeis através de uma crítica sutil, fruto de sua grande inteligência. Não por acaso, recebeu a alcunha de “Bruxo do Cosme Velho”, em alusão ao bairro carioca onde morou por longos anos.

Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 21 de junho de 1839. Faleceu em sua cidade natal em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, o menino de saúde frágil (Machado sofria de epilepsia), foi criado pela madrasta, Maria Inês, já que ainda na infância perdera sua mãe. À madrasta coube educar o menino, matriculando-o na escola pública. Em razão dos parcos recursos financeiros de sua família, seu pai falecera em 1851, ainda precocemente conciliou a venda de doces que Maria Inês preparava com as aulas no colégio. O menino mulato, de quem infelizmente temos poucas informações sobre sua infância e juventude, viria a ser, apesar das intempéries que o acompanharam ao longo da vida, o maior escritor do país.

Seu primeiro livro, Queda que as mulheres têm para os tolos, foi impresso e publicado em 1861. O primeiro livro de poesias, Crisálidas, foi publicado em 1864, no qual podemos encontrar sua vertente poeta, fato que ainda hoje muitos desconhecem. Em 12 de novembro de 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Morais, aquela que seria sua companheira por toda a vida e a quem dedicou seu último livro, Memorial de Aires. Funcionário público e escritor bem-sucedido, Machado de Assis foi fundador da Cadeira de nº 23 da Academia Brasileira de Letras, instituição que presidiu por mais de dez anos, tendo escolhido como seu patrono o amigo José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, em 20 de julho de 1897.

Acometido por sérios problemas de saúde, em 1878, transferiu-se para a cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Tal fato influenciou também sua escrita, dando início à chamada segunda fase da prosa machadiana. Até então, Machado de Assis dedicava-se ao romantismo - estética em visível decadência -, e desse período ficaram famosos os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), cujas temáticas ainda estavam distantes do discurso adotado pelo prosador irônico e contundente no qual ele se transformaria. Mesmo alinhado à estética romântica, Machado preconizou temas até então inéditos, como personagens femininas ávidas por ascensão social que, diferentemente das musas românticas de outros escritores, sacrificavam a vida sentimental em troca de interesses financeiros.

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Na ficção machadiana, encontramos o ponto mais alto e mais equilibrado da prosa realista brasileira. A atmosfera universalizante de sua obra e o talento para conduzir o leitor em uma narrativa peculiar e permeada por finas ironias – certamente o mais característico traço da escrita machadiana – renderam a Machado o posto de principal escritor brasileiro, reconhecido nacional e internacionalmente. Para Harold Bloom, professor e crítico literário norte-americano, “Machado de Assis é uma espécie de milagre, mais uma demonstração da autonomia do gênio literário quanto a fatores como tempo, lugar, política e religião, e todo o tipo de contextualização que supostamente produz a determinação dos talentos humanos”.

Por ocasião do falecimento de Carolina em 1904, a esposa portuguesa cinco anos mais velha que lhe apresentou aos clássicos da literatura portuguesa, Machado escreveu aquele que ficaria conhecido como seu mais famoso soneto, reconhecido por Manuel Bandeira como uma das peças mais comoventes da Literatura brasileira:

Machado de Assis e Carolina Augusto Xavier de Morais ficaram casados durante trinta e cinco anos, até a morte da esposa, em 1904
Machado de Assis e Carolina Augusto Xavier de Morais ficaram casados durante trinta e cinco anos, até a morte da esposa, em 1904

A Carolina

Querida! Ao pé do leito derradeiro,

em que descansas desta longa vida,

aqui venho e virei, pobre querida,

trazer-te o coração de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

que, a despeito de toda a humana lida,

fez a nossa existência apetecida

e num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores, - restos arrancados

da terra que nos viu passar unidos

e ora mortos nos deixa e separados;

que eu, se tenho, nos olhos malferidos,

pensamentos de vida formulados,

são pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis

Bibliografia de Machado de Assis:

Comédia

Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Poesia

Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.

Romance

Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú e Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.

Conto

Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.

Teatro

Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Algumas obras póstumas

Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.

Antologias

Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998.

 

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