Narração

Por Vânia Maria do Nascimento Duarte
Caracteriza-se como um relato de acontecimentos, fictícios ou não.
Caracteriza-se como um relato de acontecimentos, fictícios ou não.
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Caso parássemos para pensar, o ato de narrar encontra-se presente nas mais diversificadas situações cotidianas. Basta alguma coisa acontecer... que lá estamos nós, ávidos para relatá-la, muitas vezes, nos mínimos detalhes. Sem falar das notícias jornalísticas ou daquela entrevista (oral ou impressa), na qual o entrevistador, no meio da conversa, relembra fatos condizentes ao assunto abordado.

A verdade é que a narração, como bem nos retrata seu sentido literal, consiste no ato de relatar acerca de um determinado acontecimento, seja este real ou fictício. E por assim dizer, vale mencionar que a história contada precisa, necessariamente, ter sentido, mesmo quando se trata da oralidade. Contudo, em se tratando da escrita, os requisitos tendem a ser um pouco mais pontuados. Dessa forma, pensemos juntos sobre alguns pressupostos, um tanto quanto pertinentes:

Onde acontecem os fatos narrados?

Com quem?

Quando?

Como são revelados ao interlocutor? Que tipo de narrador? Ele participa da história ou somente retrata os fatos de maneira imparcial?

Como tudo acontece?

Para responder a essas indagações precisamos entender que a narração não subsiste sem a participação de alguns elementos, essenciais para que a interlocução seja perfeitamente materializada. Certamente que estamos nos referindo aos personagens, ao tempo, ao lugar onde tudo ocorre e, sobretudo, a como se dá o desenrolar dos fatos.
Tais elementos, ora abordados, posteriormente serão enfatizados de forma minuciosa. No momento, procuremos nos ater ao último deles: a maneira pela qual os fatos são desencadeados.

Para tanto, é bom que se diga que todo esse processo (a narração em si) se materializa por meio do enredo, que nada mais é do que a própria história, ou seja, a ideia que nos é transmitida. Assim, em termos gerais, ela se compõe da seguinte estrutura:

- De uma situação inicial, na qual são apresentados os personagens, tempo e o espaço.

- Logo em seguida, a situação inicial é, de repente, modificada. Com isso, um novo acontecimento começa a surgir, fazendo com que se estabeleça o que chamamos de conflito. 

- A partir daí tem-se o desenvolvimento da história, no qual os personagens buscam a solução para o conflito instaurado.

- Em meio a esse ínterim, chega o momento em que a narrativa apresenta o ponto de maior tensão – ora denominado de clímax.

- Por fim, temos o desfecho de tudo o que ocorreu. Dessa forma, constatamos que o conflito é solucionado de distintas formas, podendo ser de forma alegre, triste, cômica, e, muitas vezes, até trágica. 


Mediante tais elucidações, a título de colocarmos em prática os conhecimentos adquiridos, analisemos somente alguns trechos inerentes a um conto de um célebre representante de nossas letras: Machado de Assis.

Uns braços

INÁCIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.

— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! Maluco!

— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.. . Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
   
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
   
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
   
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
   
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
   
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
  
  Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.
Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, — ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.

— Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
   
Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
[...]

                                                            Fonte: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/bracos.html  

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DESTAQUES
Confira os destaques abaixo

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Objeto direto
Você consegue identificar esse termo em uma oração?

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Pacto colonial
Quais as regras impostas por esse pacto mercantilista?

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