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Saudade ou saudades?

Saudade ou saudades? A pergunta coloca em questão um assunto polêmico entre os estudiosos da língua portuguesa: a flexão numérica dos substantivos abstratos.

Por: Luana Castro Alves Perez Saudade ou saudades? A pergunta faz-nos pensar em um assunto controverso: o plural dos substantivos abstratos

Saudade ou saudades? A pergunta faz-nos pensar em um assunto controverso: o plural dos substantivos abstratos

Aposto que você já se perguntou sobre o plural de alguns substantivos da língua portuguesa, não é mesmo? Alguns substantivos abstratos, por exemplo, costumam provocar inúmeras dúvidas em relação à sua flexão de número; por isso é tão comum ver nascer tantos questionamentos sobre o assunto.

Pensando no plural dos substantivos abstratos, logo nos lembramos de alguns vocábulos, entre eles a palavra “saudade”. Afinal de contas, qual é a forma correta, “saudade ou saudades”? Essa certamente é uma das dúvidas mais frequentes entre os falantes do português e, para respondê-la, é preciso fazer uma breve análise linguística. Vamos lá?

Em primeiro lugar, é preciso fazer uma reflexão sobre os substantivos abstratos. Conforme definição gramatical, os substantivos abstratos são palavras que designam seres sem existência própria, que dependem de outros seres para existirem. Designam conceitos, conceptualizações abstratas e realidades imateriais. Indicam qualidades, noções, estados, ações, sentimentos e sensações de outros seres. Dessa forma, por serem abstratos, seriam enumeráveis, o que impossibilitaria a flexão de número. Portanto, deveriam, em princípio, ser grafados apenas no singular. Seria possível contar ou medir a saudade, o ciúme, a felicidade, a tristeza? Não. Contudo, quando essas palavras passam a ser pluralizadas, elas estão sofrendo aquilo que chamamos de expansão semântica, fenômeno que acontece quando um vocábulo tem seu sentido nuclear alterado.

E isso é ruim? Não necessariamente. Basta pensar que, antigamente, as palavras parabéns e pêsames eram escritas e faladas apenas no singular, ou seja, parabém e pêsame. Parece estranho, não é mesmo? Ambas sofreram a chamada expansão semântica, fato que comprova a constante evolução e modificação da língua, esse incrível organismo vivo passivo de mutações. Quando eu desejo “felicidades” a alguém, estou, na verdade, desejando “votos de felicidade”. Além disso, eu posso, tranquilamente, sentir várias saudades: saudade da minha família, da minha infância, de uma época especial da vida etc.

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O tema ainda gera muitas controvérsias, principalmente entre os estudiosos da língua portuguesa. Alguns linguistas, mais antenados com a realidade e com os usos do idioma, admitem a flexão dos substantivos abstratos, afinal de contas, os usuários costumam consagrar algumas formas, que, depois de difundidas, fica difícil conter seu avanço. Outros, mais tradicionalistas e menos afeitos às modificações feitas pelos falantes, argumentam que pluralizar os substantivos abstratos é um caso grave de desvio da regra, da norma culta da língua, uma vez que não existe uma maneira eficiente de separar abstração e concretude (para Olavo Bilac, por exemplo, “a saudade era a presença dos ausentes”), por isso a importância de se respeitar as antigas convenções.

Diante desse impasse, sugerimos que você utilize as duas formas, saudade e saudades, desde que os sentidos principais do vocábulo não sejam modificados e que a concordância com os demais termos da oração seja respeitada. Agora, substantivos como raiva, ódio e preguiça devem ser mantidos no singular (fiquemos de olho na evolução da língua), já que, por enquanto, ninguém se atreveu a subverter as regras. Bons estudos!